Há muitas suposições sobre a real data do nascimento de Cristo. No entanto, enquanto cristãos, mais do que nos determos nessas hipóteses, importa-nos celebrar, na liturgia, a Sua vinda. Tanto é assim que a solenidade mais importante da fé cristã é a Páscoa, conforme ensinou São Paulo aos Coríntios:

“E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e também é vã a vossa fé.” (Cf. 1Cor 15,14).

Aos leitores que apreciam a história da Igreja, desde os seus primórdios, nós, cristãos católicos, sempre valorizamos a inculturação, isto é, a adaptação do Evangelho a culturas já existentes. Esse processo ocorre por meio da introdução, na liturgia, da língua, da música, da arte e dos símbolos locais. A finalidade dessa integração é a evangelização pelo diálogo, pelo respeito às culturas pré-existentes e pela preservação da unidade na diversidade. Prova disso são os 24 ritos litúrgicos da Igreja Católica Apostólica, divididos em seis grandes tradições, diretamente influenciadas pelos costumes dos povos.

Com o Natal não foi diferente.

Após o Édito de Milão, promulgado em 313 d.C., quando o imperador Constantino, filho de Santa Helena, uniu-se ao coimperador Licínio, foi concedida liberdade de culto aos cristãos. O documento afirmava:

“Nós, Constantino e Licínio, imperadores, reunidos em Milão para tratar do bem e da segurança do império, decidimos que, entre tantas coisas benéficas à comunidade, o culto divino deve ser nossa primeira e principal preocupação. Pareceu-nos justo que todos, inclusive os cristãos, gozem da liberdade de seguir o culto e a religião de sua preferência, para que qualquer divindade que habita no céu seja favorável a nós e a todos os nossos súditos.”

Trinta e sete anos depois, no ano 350, o Papa São Júlio I decretou a celebração do Natal no dia 25 de dezembro, substituindo duas festas pagãs: a dedicada ao deus da agricultura, Saturno, e a do Sol Invictus, celebrada por ocasião do solstício de inverno. Durante a Saturnália, comemorada em 17 de dezembro, havia uma inversão das classes sociais, promovendo igualdade simbólica entre os homens; os senhores serviam os escravos, trocavam-se presentes e agradeciam-se as colheitas.

Na Liturgia das Horas, especialmente no Benedictus, oração da manhã (Laudes), rezamos:

“Pela bondade e compaixão de nosso Deus, que sobre nós fará brilhar o Sol nascente…”

Esse novo Sol é Nosso Senhor Jesus Cristo, que afirmou:

“Eu sou a luz do mundo; quem me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida.”
Assim, o Natal é, para nós, a festa da Luz.

Na cultura germânica e nórdica, durante as festas de inverno, casas, pinheiros e carvalhos eram decorados em honra a Odin, deus supremo da mitologia nórdica, associado à sabedoria, à poesia, à guerra e à morte. Sua imagem era a de um homem velho e sábio, lembrando a figura do atual Papai Noel, com barba branca e vestes vermelhas. As renas, que puxariam o trenó com presentes, tornaram-se símbolo natalino em 1823. Atualmente, nas regiões árticas, os trenós são puxados por cães das raças Husky Siberiano e Malamute-do-Alasca.

Quanto ao nosso Papai Noel, veneramo-lo como São Nicolau, celebrado em 6 de dezembro. Bispo católico que viveu em Mira, na atual Turquia, São Nicolau distribuiu seus bens aos pobres após a morte dos pais. A tradição relata que ele colocava moedas de ouro nas janelas ou meias das famílias pobres para pagar o dote de jovens que, sem recursos, poderiam ser escravizadas. Assim, São Nicolau, o “Papai Noel”, nunca morou no Polo Norte, mas tornou-se um símbolo de caridade e generosidade.

Desejo a cada leitor e à sua família um Feliz Natal. Que nada nos falte, nem para o corpo nem para a alma. Lembremos das famílias assistidas por nossos movimentos sociais e levemos às nossas comunidades ao menos um quilo de alimento não perecível. Que a Sagrada Família — Jesus, Maria e São José — interceda por nós.
Natal feliz é Natal sem fome.

Autor:
Pe. Marcos Paulo Pinalli da Costa
Mestre em Direito Canônico, professor e pároco da Diocese de Campos-RJ.